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04/11/2011

O apagão agora é de líderes

Depois do apagão da mão de obra, o Brasil enfrenta agora seu apagão de líderes. Consequência do crescimento econômico dos últimos anos, o cenário provoca outro movimento que mexe com as corporações: um alto índice de rotatividade entre executivos e gestores. Ou seja, as empresas se ressentem de profissionais qualificados a assumirem cargos de liderança, o que pode, inclusive, afetar seu crescimento.

Foi o que descobriu pesquisa feita pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Nacional), em parceria com a Empreenda e a SPHINX Brasil. Segundo o levantamento, para 63,6% dos consultados, as companhias não têm líderes suficientes para suprir suas necessidades nos próximos três anos.

— Há mais brasileiros entrando nas escolas, mas há menos brasileiros saindo delas. Isso, enquanto nossa economia cresce muito. Assim, é importante investir na qualificação e, especialmente, em líderes. O problema é estrutural e vem de base — diz Luiz Edmundo Rosa, diretor da ABRH.

Headhunter da Michael Page, Marcelo Cuellar atenta para o fato de que existe um motivo óbvio que justifica esse apagão:

— Um líder com experiência sólida demora de dez a 20 anos para se formar. O Brasil deu um salto entre os últimos três e cinco anos, então é normal que não tenha um gestor com dez anos de prática. Não deu tempo de qualificá-los.

Além do desenvolvimento acelerado em descompasso com a evolução da educação, há outros fatores que estariam provocando essa “dança das cadeiras” nos cargos mais altos da hierarquia corporativa. Segundo outra pesquisa, essa feita pela coach Waleska Farias, os principais motivos que levam a essa rotatividade acentuada são ambiente ruim no trabalho (para 28% dos consultados), liderança fraca ou falta de confiança no gestor (21%), rotina sem desafios (14%) e falta de qualidade de vida (13%).

— Um gestor que não se mostra capaz para os desafios, hoje, cerceia todas as possibilidades de crescimento de uma equipe — diz Waleska.

As descobertas da coach são reiteradas por uma pesquisa da consultoria DBM, que indica que 45% dos executivos gostariam de permanecer na organização em que trabalham somente de um a três anos.

— O apagão de líderes está, sim, ligado ao crescimento econômico do país, mas também está muito relacionado ao desengajamento de gestores e executivos dentro das empresas — acentua José Augusto Figueiredo, chefe de operações da DBM na América Latina e presidente do International Coaching Federation (ICF Brasil).

‘É tanta coisa acontecendo no mesmo lugar (no Rio)...’

E embora estejam surgindo oportunidades de emprego e negócios em todo o país, o problema da falta de líderes preparados parece maior no Rio — palco não só de investimentos no setor de óleo e gás, mas também, em um futuro breve, de eventos gigantescos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas de 2016.

— E ainda há outras frentes de projetos, como a revitalização da indústria naval offshore, os investimentos na indústria de telefonia, nas áreas de energia elétrica e da cultura. É tanta coisa acontecendo no mesmo lugar, que não há mesmo profissionais preparados para assumirem posições de gerência e liderança — analisa Figueiredo.

Além disso, o estado do Rio “enfrenta o agravante” de ser campo para o surgimento de indústrias que não existem em outros lugares do país, como a do pré-sal e dos jogos esportivos.

— São mercados novos, em que o Brasil não tem experiência. É um adicional que dificulta ainda mais o recrutamento — ressalta Cuellar, da Michael Page.

Nesse contexto, estão se fortalecendo, por aqui, a importação de mão de obra estrangeira para cargos estratégicos e a alocação de pessoas em posições para as quais elas ainda não estão preparadas — um risco que algumas empresas estão precisando assumir.

— Nunca esses dois movimentos foram tão fortes — avalia Thais Blanco, diretora da Aon Hewitt, consultoria especializada em capital humano.

Investir em treinamento interno deve ser prioridade nas empresas

Trazer mão de obra de fora foi a opção da Guerbet Brasil, empresa especializada em contrastes e tecnologias para diagnóstico por imagem, que está contratando Martin Louvel para o cargo de gerente de Agentes na América Latina.

— É mais econômico trazer um profissional de fora do que contratar um brasileiro. Hoje, o salário de um gerente aqui é mais alto que o de um expatriado com a mesma formação na França — pondera Alexis Peyroles, diretor geral da Guerbet Brasil, que reconhece o cenário de “apagão de líderes” e está investindo R$ 300 mil na primeira etapa de um programa de formação de gestores.

Existem ainda outras duas frentes de ação que podem ser adotadas pelas organizações diante do problema de falta de gestores qualificados.

— A primeira é começar a roubar os líderes das empresas ao lado, e, claro, pagar caro por isso. E a segunda é efetivamente trabalhar desenvolvimento e promoção interna — afirma Thais Blanco, diretora da Aon Hewitt, acrescentando que essa segunda opção tem sido a mais utilizada.

Foi por esse processo que passou Ana Paula Alves, team leader de Remuneração e Benefícios da América Latina na Schlumberger, especializada em óleo e gás. Promovida há dois anos, ela foi uma das escolhidas pela diretoria para receber sessões de coaching.

‘Não é um projeto barato. Me sinto valorizada’

— Aprendi a trabalhar as habilidades interpessoais e a gerenciar melhor as emoções, o que ajuda muito na hora de uma tomada de decisão estratégica — afirma Ana Paula, que, após ter concluído a “terapia profissional”, está sentindo os resultados. — Me trouxe mais maturidade e está me ajudando na preparação para o futuro.

Gestora de uma empresa do segmento de contact center, Cristiani Girardin também foi selecionada, entre alguns executivos da companhia onde atua, para ser acompanhada por um coach e preparada para uma futura promoção.

— É um investimento que a empresa faz naqueles em quem ela enxerga potencial. Estou me preparando para assumir um cargo superior — conta Cristiani, que reconhece o alinhamento de sua empregadora com as necessidades do mercado. — Não é um projeto barato. Os melhores do mercado são contratados. Mas me sinto valorizada.

— O grande desafio para as organizações, hoje, é a questão da retenção de talentos — conclui Ângela Estellita Lins, sócia da consultoria Heian.

(Fonte: O Globo - 30/10/2011)