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25/01/2012

Os desafios de se adaptar à cultura de uma nova empresa

Estar à vontade e bem adaptado ao novo ambiente de trabalho é uma das principais preocupações de quem entra numa empresa. O processo envolve não só uma relação azeitada e adequada com os colegas de trabalho e com as chefias, como também compreender - e se encaixar - bem à cultura da organização.

Quando se é terceirizado, então, a situação fica um pouco mais complexa, dizem consultores de RH, porque a adaptação tem que ser não só à empresa da qual se é empregado, mas também aos clientes.

Algumas dessas organizações que prestam serviço a grandes empresas treinam seus funcionários para que conheçam como é o ambiente de trabalho. A apresentação à cultura da empresa-cliente é a segunda etapa desse processo, e pode ser feita, por exemplo, através de um workshop que mostra a cultura interna da empresa, a visão, missão e os valores.

Segundo Alexandra Visconti, gerente de recursos humanos da Personal Service, aspectos como formalidade (tratamento entre as pessoas, vestimenta, relações de hierarquia na empresa); ritmo de trabalho e forma como os processos de contratação e promoção são feitos devem ser levados em conta por quem está chegando numa empresa. Para checar como as coisas funcionam no dia a dia, a orientação é observar.

- O funcionário (ou terceirizado) que chega a uma organização deve checar como as pessoas se comportam em reuniões, se elas se falam mandando e-mails, telefonando ou indo à baia do colega. Outra questão são as relações entre funcionários e chefes: se são muito rígidas e formais ou se há uma abertura para papos mais descontraídos - diz Alexandra, acrescentando que sempre é válido conversar com quem já trabalhou na empresa, para se ter uma visão mais realista sobre o ambiente de trabalho.

Para o coach Silvio Celestino, autor do blog “Conversa de Elevador”, procurar ler nas entrelinhas as mensagens não verbais mostra o que é valorizado dentro da organização. Ele aconselha os novatos a não se oporem a esses valores, mas procurar entender quais são as fontes geradoras dessas mensagens e respeitá-las.

- Somente quando se está ocupando um cargo estratégico é que se tem poder para mudar uma cultura; antes disso o melhor é adaptar-se. Cuidado para não criticar a cultura da empresa, pois não há atitude pior para a carreira do que se falar mal da empresa em que se trabalha - afirma Celestino.

Não comparar a cultura da empresa com a da organização em que a pessoa trabalhava anteriormente também ajuda, diz Celestino, pois a comparação gera conclusões que não levam a nada, já que a realidade deve ser encarada da forma como se apresenta:

- O comportamento dos líderes é fundamental. Um sistema que bonifica as pessoas por vendas, e não pela qualidade do atendimento ao cliente, diz o que a empresa valoriza. E um líder que, por exemplo, chega sempre atrasado às reuniões mostra o quanto o tempo das demais pessoas é valorizado, ou não - arremata.

Trabalhar em local com cultura diferente da própria permite evolução profissional

Segundo José Augusto Figueiredo, presidente do International Coaching Federation no Brasil (ICF-Brasil), é importante saber os valores da organização, porém isso leva mais tempo. Já os comportamentos, diz, podem ser observados com maior facilidade e dizem muito sobre a empresa. Se, por exemplo, os funcionários costumam trabalhar sempre até mais tarde, pode significar que a empresa seja desorganizada ou que seja bastante informal - neste caso, porque os colaboradores ficariam mais “soltos” durante o dia, consumindo tempo com outras coisas, e precisariam de mais tempo para cumprir as tarefas diárias. Rituais como reuniões devem ser observados: desde a precisão e frequência até a organização e as pautas. Mas o que melhor traduz a cultura de uma organização são as relações de hierarquia, explica Figueiredo.

- Quem está chegando deve logo entender isso, para não avançar o sinal - afirma. - O estilo de liderança dos gestores é crucial para entender como as coisas acontecem: observe os chefes e veja como agem.

Mas e quando o funcionário (ou terceirizado) não se adapta à cultura da organização? A sugestão é que faça uma reflexão para avaliar até que ponto consegue ser flexível, sem ferir seus próprios valores, diz Figueiredo. O consultor afirma que é necessário ter maturidade para compreender quais são os traços da organização e das pessoas em questão, e para separar isso dos próprios valores. Assim, explica, a pessoa pode lidar melhor com o dia a dia, vendo que a forma como se comporta dentro da empresa não precisa ser, necessariamente, a maneira como se comporta fora dela. Assim, compreender os códigos internos, saber aonde se quer chegar, quanto vale o esforço e qual é o seu próprio plano de carreira é mais do que necessário.

- Pela minha experiência, a pessoa que só entra em empresas congruentes com sua própria cultura interna se boçaliza, a longo prazo. Todo mundo prefere ficar na zona de conforto, mas muitas vezes não ficar nessa zona é justamente o que te faz evoluir e crescer profissionalmente.

(Fonte: O Globo - 10/01/2012)